Para Ciro novo governo deveria restaurar a capacidade de consumo das famílias para voltar a crescer

A Revista Época pediu que ex-ministros da Fazenda escrevessem um artigo endereçado ao futuro ministro Paulo Guedes. Eis minha contribuição:

O Brasil precisa construir um caminho para recuperar a capacidade de se desenvolver, mas essa capacidade não vai se resolver facilmente. Não há precedente de desenvolvimento sustentado que se baseie na ilusão da poupança estrangeira.

Quatro motores são óbvios para colocar o Brasil de novo neste rumo. O primeiro motor, só em ordem de apresentação, é restaurar a capacidade de consumo das famílias. Isso é responsável por 30% a 40% do crescimento do PIB brasileiro nas últimas vezes que crescemos. Por isso é tão necessário ajudar que mais de 60 milhões de pessoas consigam sair do SPC (Serviço de Proteção ao Crédito). O segundo é restaurar a capacidade de investimento empresarial, que também está estrangulada. A dívida, hoje, do setor privado brasileiro é de R$ 2 trilhões, nessa loucura de taxa de juros que temos praticado, com R$ 400 bilhões a R$ 600 bilhões já caminhando para crédito de recuperação duvidosa. Como permitimos, irresponsavelmente, que nos últimos 15 anos fossem concentradas 85% das operações financeiras em apenas cinco bancos, o governo vai ter que rever isso para agravar a competição. O terceiro é interromper, de forma urgente, o processo mais brutal da história do capitalismo mundial de destruição de indústrias. O Brasil fechou 13 mil indústrias nos últimos três anos e isso precisa ser invertido corrigindo os preços centrais da economia, especialmente cambio e juros, mas também explorando potencialidades globais: os complexos industriais de petróleo, gás, bioenergia, agronegócio, saúde e militar. O quarto motor é consertar a capacidade de investimento perdida pelo Estado nacional brasileiro. A União federal, com o menor volume de investimento da história, está investindo neste ano ao redor de meros e ridículos 1% do PIB. E 17 dos 27 Estados brasileiros estão colapsados, já com seus gastos correntes superiores às suas receitas correntes. A situação mais dramática está em três Estados muito importantes: Rio Grande do Sul, Rio de Janeiro e Minas Gerais.

Entretanto, essa óbvia potencialidade de impasse tem condições de ser superada com três atenuantes e um fusível. Primeiro atenuante, propor antes. Infelizmente, este tempo já se esgotou. Segundo, propor nos seis primeiros meses. Todos os presidentes eleitos se elegeram com minoria no Congresso, mas todos tiveram poderes imperiais no início de seus mandatos. Terceiro, tocar o pacto fiscal novo, consertando a conta pública com um redesenho do pacto federativo. Já o fusível é assim: persistiu o impasse, chama o povo para votar. Plebiscitos e referendos.

O Brasil é um país com grandes potencialidades e com um povo trabalhador e, acima de tudo, generoso. Compreender as necessidades da nossa população e apontar um caminho virtuoso de crescimento com responsabilidade fará este país ser grande como ele merece.

Ciro Gomes

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